domingo, 8 de maio de 2011

Inês e Pedro na Capadócia

Goreme

No dia 8 já muito tarde a Inês chegou para uma semana de Turquia! Nesse mesmo fim de semana partimos para a Capadoccia com a Ayse, cuja família é nativa desta zona da Turquia. As expectativas eram enormes, mas cada momento foi ainda melhor do que o esperado. Ficámos hospedados em Goreme, num hotel entitulado “Flinstones Cave”. O quarto era precisamente uma gruta, e senti-me como o Fred Flinstone. Goreme foi mesmo o melhor sítio onde podíamos ter ficado, uma pequena vila muito muito bonita e perto das coisas mais importantes para ver na Capadoccia. No primeiro dia contámos, como disse, com a Ayse. Fomos directos a Derinkuyu, uma aldeia mais a sul conhecida pela sua grande cidade subterrânea. Visitámo-la, claro, e chegámos a estar 7 andares abaixo do solo. Foi incrível ver a dimensão e até o desenvolvimento desta estrutura. Mas a melhor parte estava reservada para o resto da tarde e noite. O primo da Ayse foi-nos buscar e fomos conhecer a aldeia onde a família da Ayse nasceu. Uma verdadeira aldeia turca, bem no interior da Capadoccia. Conhecemos primos, tios, avós, sobrinhos e tios-avós. Comemos com a família uma verdadeira refeição turca, visitámos as casas de vários membros da família, vimos como tratam as vacas, e por fim até jantámos com um tio da Ayse que é presidente da câmara lá do sítio. Apesar de termos algumas dificuldades de linguagem, todos foram incrivelmente simpáticos e voltámos a Goreme com a sensação de termos vivido um pouco da Turquia real.

Inês e Ayse em Derinkuyu

Um verdadeiro almoço turco

Família da Ayse

No segundo dia a Ayse regressou a Istambul, e nós iniciámos a nossa descoberta. Começámos pelo Goreme Open Air Museum, um complexo de igrejas escavadas dentro de rochas, uma mistura incrível de natureza e civilização. Ficámos impressionados como tudo aquilo tinha sobrevivido a revoluções, a religiões e até ao clima, embora muitos dos símbolos cristãos tenham sido riscados. No regresso, descobrimos um restaurante também dentro de uma gruta, onde provámos a tradicional Manti e Guveç, dois pratos deliciosos. Já com energia, decidimos arriscar e tentar subir uma montanha para tentar ver melhor a área. Depois de muito esforço, a recompensa foi incrível. De um lado uma vista linda sobre as montanhas e rochas da região, do outro a vista de toda a vila de Goreme, com o castelo de Uchisar lá ao fundo.

Uma das igrejas do Goreme Open Air Museum

Ainda tivemos tempo para uma grande caminhada no Pigeon Valley, que liga Goreme a Uchisar, com a bela luz de fim de dia. Depois de pararmos em Uchisar, conseguimos uma boleia de regresso a Goreme e jantámos em mais um sítio com uma ambiente muito familiar e acolhedor. Onde quer que fossemos, o sentimento era o de estar dentro da casa de alguém.

Pidgeon Valley

Uchisar

O terceiro e último dia foi reservado para conhecer Urgup, o Pasabaci valley perto de Zelve e Çavusin. Urgup é uma pequena cidade, muito bonita, com um miradouro no alto da zona antiga da cidade, onde se sobe para pedir um desejo e ver a magnífica vista. A subida não foi fácil, porque começou a nevar bastante, mas foi compensadora. De lá partimos para o Pasabahi valley, talvez dos sítios mais bonitos por onde passámos, apesar de bastante turístico. Este vale é conhecido pelas “fairy chimneys”, uma paisagem incrível e mais uma vez cheia de mistérios escondidos dentro das rochas. Por esta zona andámos uns quantos quilómetros, contra o vento e o frio, até chegarmos a Cavusin. Outra pequena aldeia com uma encosta de casas escavadas na rocha, mas já num estado algo perigoso, tanto que era proibida a entrada. Apanhámos outra boleia de um casal de russos até Goreme, onde jogámos um gamão enquanto esperávamos pelo autocarro para Kayseri, de onde regressámos a Istambul.

sábado, 30 de abril de 2011

Férias em Istambul (Bebek, Nisantasi, Fatih e outros)

Yeni Mosque e Aya Sophia vistas da Ataturk Bridge

Na primeira semana de Abril, tive oportunidade de viver Istambul de uma maneira diferente. Passei a minha semana de férias a passear pela cidade, a conhecer os cantos menos falados, as partes mais “turcas” da cidade. Desde as zonas ricas de Bebek e Nisantasi até às ruas mais pobres de Fatih e Fener, Istambul surpreendeu-me todos os dias. A cidade continua a parecer-me infinita. A meio da semana fui visitar a parte mais turística da cidade, Sultanahmet, à noite. Foi uma bonita experiência, pude ver as ruas perto da Mesquita Azul e da Aya Sophia quase desertas, e entrar no silêncio da Mesquita.

Mesquita Azul à noite

No dia 4 começou o Istambul Film Festival, uma das grandes atrações do mês de Abril. Os filmes são distribuídos por 6 cinemas na cidade, sendo que 3 deles são na Istiklal Cadessi, onde a maior parte da acção se desenrola. A rua continua cheia e pouco diferente, mas assim que se entra nos cinemas percebe-se o ambiente diferente das semanas do festival. O mais interessante é que estes cinemas são quase todos em prédios completamente normais, a meio da rua. Têm uma ou duas salas e um pequeno bar. Mesmo às 3 da tarde de um dia de semana, é difícil arranjar bilhete, e as salas enchem-se de turcos e estrangeiros. O ambiente fez lembrar a Cinemateca em Lisboa, principalmente antes das obras. Logo no primeiro dia, fui ver o Bonnie and Clyde, no Beyoglu cinema, uma pequena sala com pinturas na parede e um ambiente aristocrático. A meio da semana vi o Blue Velvet, do David Lynch, num cinema mais moderno, mas também na Istiklal. Apesar de ter vontade de ver muitos mais, a viagem à Capadoccia interrompeu as minhas idas ao festival, que foram retomadas com a Inês, no penúltimo dia do Festival, para ver O Estranho Caso de Angélica, do nosso Manoel de Oliveira. Bizarro filme, belas imagens, quase incompreensível história. Houve até alguns turcos a abandonarem a sala a meio, insatisfeitos com a história de um fotógrafo numa aldeia do Douro, que se torna obcecado por uma rapariga morta.

Esta semana serviu também para poder testar um pouco os guias que temos cá em casa. Visitei alguns restaurantes e casas de chá, e fiquei agora a conhecer mais e melhores sítios de Istambul, que em breve serão referidos por aqui, quem sabe num top restaurantes.

Como disse, vagueei por zonas ricas como Bebek, Arnavutkoy ou Nisantasi. As duas primeiras são mesmo em cima do bósforo, e são conhecidas pelas grandes mansões em cima da água e pelas lojas e restaurantes caros que se podem visitar.

Arnavutkoy, perto de Bebek, no Bósforo

Para contrastar, visitei Fatih e Fener, talvez das mais pobres regiões de Istambul. Aqui são raros os turistas, e frequentes as crianças descalças a jogar futebol na rua. Alguns turcos que conheço chamam a este sítio "Islamic Republic of Istanbul", devido a ser onde se concentram os mais tradicionais e mais fervorosos fãs da região islâmica. Aqui raramente se vê mais do que os olhos das mulheres, e os homens exibem barbas compridas e mantos que cobrem o corpo. Até nos preços da comida se nota a diferença. Acho que neste sítio tive a noção de que Istambul é quase um país, uma mistura gigante de culturas e formas de vida. De realçar ainda a beleza de alguns locais em Fatih, principalmente a Fatih Mosque e o Kariye Museum, uma antiga Igreja e Mesquita que hoje mostra os melhores mosaicos da cidade.

Aqueduto de Vallens

Mesquita Fatih

Chegada ao Bósforo depois de descer de Fatih

Fim do passeio em Eminonu, com vista para a Torre Galata

segunda-feira, 28 de março de 2011

Top 5 e meio de Comida Turca

Surge então o primeiro ranking no meu blog, claro está, de comida! Teria que ser o primeiro, ou não fosseturismo gastronómico uma das minhas actividades favoritas. Chamo-lhe top 5 e meio primeiro porque é giro armar-me em parvo, e em segundo para distinguir os 5 pitéus que mais apreciei até agora e também um sexto, que ficou perto de entrar nos 5 primeiros, mas que ainda não me convenceu por completo. Ora então cá vai a minha opinião, na esperança de levar alguns curiosos a um dia provarem estas delícias:

1 – Lahmacun: Consiste numa espécie de piza muito muito fininha, com cebola, tomate, pequenos pedaços de carne e ervas, que vem acompanhada por diferentes vegetais. Estes vegetais devem ser colocados em cima da piza, polvilhados com picante e menta, e em seguida a piza deve ser enrolada. O sabor é fabuloso, o estilo de comer é turco, o cheiro que fica nas mãos é teimoso, e tudo isto por menos de um euro!

2 – Adana durum Kebap: Ora bem, kebaps há muitos e muito diferentes (a bem dizer, acho que vou escrever um artigo só sobre este fenómeno gastronómico), mas o que mais se distinguiu até hoje foi este adana durum kebap. Durum significa “num wrap”, e define o tipo de pão em que o recheio do kebap vem embrulhado. Adana é um tipo de carne que consiste em carne de borrego picada grelhada em espetadas ao lume. Junta-se isto a alguns legumes, um pouco de picante e o wrap para embrulhar e temos o nosso segundo lugar do pódio. Tudo isto também por coisa de 2 euros e meio.

3 – Baklava: A grande sobremesa turca. Não podia deixar de estar no ranking, nem que seja por ser diferente de qualquer sobremesa que já tenha experimentado. O sabor intenso dos pistachios, com as finas camadas de massa e o toque final de açúcar derretido com manteiga culminam nesta maravilha da Turquia, original de Antep, ou Gaziantep, cidade que visitarei muito em breve. Existem mais de uma dezena de varieadades de Baklava. Provar todas e eleger a minha favorita é o meu passo seguinte.

4 – Kumpir: Já falado aqui no blog, o kumpir é tradicionalmente comido na zona de Ortakoy, embora possa ser encontrado um pouco por toda a cidade. Basicamente é uma grande batata, em que o seu interior é misturado com os mais diversos ingredientes. Quase tudo pode ser misturado dentro de um kumpir. De todas as coisas que comi, é talvez a mais diferente, e quem visitar Istambul tem que provar.

5 – Kofteci: Traduzindo, almôndegas. No entanto, mais uma vez, em terras turcas estes simples pedaços de carne tornam-se mágicos quando misturados com as mais diferentes especiarias e grelhados segundo os segredos turcos. Existem vários tipos também, são geralmente servidas com pão, pimentos, tomate e alface, e sabem sempre bem. Algumas cadeias de Kofteci não são más de todo, especialmente a Ramiz Kofteci.

Meio – O prémio consolação deste primeiro ranking vai para o Kokoreç. São pedaços de intestino de borrego, geralmente servidos no pão, com um sabor intenso e inesquecível. No entanto, talvez pelo poder deste sabor, ainda não o consegui integrar nos 5 primeiros. Mas não deixem de provar se visitarem Istambul, é imperdível. O melhor sítio para os provar será o Sampyon Kokoreç, também uma cadeia.

Por fim, é importante referir que este ranking foi construíndo tendo em conta o que experimentei neste primeiro mês e meio na Turquia, e que poderá (e eventualmente irá) ser alterado com novas experiências e novos sabores que descobrirei. Queria deixar também uma palavra de apreço a alguns pratos derrotados como por exemplo o Balik Ekmek (pão com peixe), Pide (piza turca), Midye Dolma (mexilhões com arroz), Manti (raviolis cá do sítio) ou os outros tipos de Kebap. São também merecedores da vossa curiosidade e bons representantes desta gastronomia surpreendente.

Os últimos tempos


Ao fim de algum tempo sem escrever aqui nada, aqui vai um resumo das coisas mais interessantes que tenho feito. Peço desculpa por não serem claramente tão entusiasmantes como as viagens, mas afinal de contas também estou a estudar por aqui.

Bem para começar uma coisa relevante para quem retira daqui algumas dicas turísticas: em Março pode nevar, e bastante! Já tivemos um pouco de tudo, passando do cancelamento das aulas devido à neve para a falta de vontade de ir às aulas devido ao sol. Aproveitando alguns raios de sol temporários, fomos passear por exemplo ao lado asiático de Istambul, aqui há duas semanas. Um dia de sol, um passeio pelo Bósforo de Uskudar até Kadikoy, e umas voltas nas ruas movimentadas e cheias de lojas da zona de Moda.

Tive também oportunidade de andar por dois dos bairros mais chiques e caros da cidade: Bebek, mesmo em cima do Bósforo, e Nisantasi (na zona de Osmanbey). Foi bastante engraçado observar as diferenças entre estas zonas mais exclusivas e as áreas mais interiores e pobres de Istambul. As pessoas na rua parecem todas famosas. Dá a sensação que me estou a cruzar com grandes estrelas do cinema turco sem fazer ideia de quem são.

Depois de mais de um mês e meio aqui, fiz duas coisas pela primeira vez: entrei num centro comercial e comi no McDonalds! Fui ao centro Cevahir, em Sisli, que dizem ser o maior centro comercial da Europa. Se é, não sei, mas que é enorme é verdade. Lá dentro fui, como disse, ao McDonalds, que é uma coisa que faço em todas as cidades que visito, pela piada de comparar os menus e as adaptações da comida aos países. Pode parecer um pouco, digamos, parvo, mas gostos não se discutem. Já agora aproveito para apresentar as 3 grandes adaptações do McDonalds à Turquia: McKofte (hamburguer de almôndegas), McTurco (não sei bem mas vou provar), e McKavuklu (com frango mas diferente do McChicken). Tem também uns menus gigantescos como o Mega Big Mac (4 Hamburguers), que vão ter que ser experimentados!

Outro dos destaques dos últimos dias vai para a minha visita à maior fábrica de Baklava do mundo. Baklava é a mais conhecida sobremesa turca, um doce geralmente com pistachios, açúcar, e cerca de 35 camadas microscópicas de uma massa feita cuidadosamente pelos chamados mestres do Baklava. Fiquei a conhecer alguns segredos deste negócio, e graças à já habitual amabilidade dos homens de negócios turcos, pude provar quase todos os tipos de Baklava que existem.

Durante esta semana o governo do meu país caiu, mas isso não se passou na Turquia, pelo que não terá comentário aqui no blog. Já na Turquia, cairam também Bernd Schuster e Gica Hagi, os antigos treinadores do Besiktas e Galatasaray, o que abre agora novas e mais positivas perspectivas para estes importantes clubes da capital.

Já que falo do Besiktas, tenho que contar esta história. Estava eu já há cerca de 4 horas numa esquadra de polícia turca, a tentar conseguir tratar do meu visto de residência (burocracia turca merecerá um texto exclusivo), quando se passou um momento digno de registo. Depois de meia hora a olhar para o meu passaporte e a escrever números sem qualquer comentário (o meu turco não é brilhante, e o inglês dele também não era), o senhor polícia elevou a sua cabeça, olhou para mim, olhou de novo para o passaporte, elevou de novo a cabeça, e, através do vidro do guichet, exclamou: “Ricardo Quaresma!” Eu respondi “Simão Çok Guzel” (a tentar explicar que o Simão era melhor) e assim terminou a saga do visto de residência.